Hackers, Crackers e Contramovimentos

 

A ​Internet ​que conhecemos atualmente é fruto de uma evolução tecnológica, a qual tornou a acessibilidade à informação muito mais rápida e prática. Consequentemente, uma parcela da população começou a se interessar em estabelecer relações mais próximas com a tecnologia, com a finalidade de ter acesso não somente ao que era disponibilizado ao público em geral, mas também ter acesso ao que é considerado restrito e/ou confidencial.

O professor Nelson Pretto em seu artigo “Redes Colaborativas, Ética Hacker e Educação” mostra que existe uma ética envolvendo os ​hackers. Um dos exemplos dados por ele é o ato de de partilhar. Essa comunidade de ​hackers aparenta bastante união na resolução de problemas que surgem à medida que novos projetos são criados. “Era o início do até hoje conhecido RFC (Request For Comments – solicitação de comentários), comum na computação, que nada mais é do que pôr uma ideia (uma solução) na mesa, aguardando a colaboração dos demais” (PRETTO, 2010, p. 311).

Os primeiros ​hackers dos quais temos ciência também são mostrados por Pretto em seu artigo, e eram estudantes dos clubes juvenis do ​Massachusetts Institute of Technology (MIT) responsáveis pela criação do código de ética dos hackers durante os anos 1950. O código consistiu basicamente em ​seis princípios os quais deveriam fazer parte de todos os trabalhos desses profissionais. O primeiro princípio baseava-se no pensamento de que o acesso ao computador, ou qualquer ferramenta que proporcionasse aprendizado sobre o modo como o mundo funciona, deveria ser total e ilimitado. A informação também deveria ser livre e gratuita, pois sem acesso à ela não há como consertar as coisas. Em terceiro lugar, o código de ética contesta as autoridades e posiciona-se a favor da descentralização.

O ​hacker deve ser julgado não por “critérios falsos” (PRETTO, 2010, p.312) como a escolaridade, gênero, raça, religião, entre outros, mas sim de acordo com a sua competência e qualidade. O quinto princípio traz a arte para perto da computação quebrando o tabu de que não há como fazer arte com um computador. O sexto e último princípio diz que computadores podem melhorar a vida das pessoas. Tendo como ponto de partida esses seis princípios, os hackers puderam trabalhar para que os computadores, a rede de computadores e a internet fossem criados.

Os ​crackers​, por sua vez, têm em seu nome um grande estigma de irresponsabilidade, devido à seus comportamentos voltados para a invasão de de sistemas de segurança e quebras de códigos computacionais, o que faz com que a cultura hacker veja os crackers com alguma apreensão. Ambos, porém, acreditam que o conhecimento deve ser livre, e não fechado para o governo.

O ato de ​crackear é considerado muito complicado e requer diversas habilidades como, por exemplo, conhecimento das áreas de ​hardware​, ​software e ​networks​. De acordo com Andrew Colarik em seu livro “​Cyber Terrorism: Political and Economic Implications​” tais conhecimentos podem, inicialmente, ser aprendidos no ambiente de trabalho universitário, através de livros e com a prática durante o tempo livre. (p. 42). A preocupação maior a respeito da comunidade de crackers é a medida em que eles atingem um alto nível de expertise, pois não se sabe ao certo como eles irão aplicar suas habilidades e nem para qual finalidade serão utilizadas, o ​cyber terrorismo acaba sendo um dos campos de atuação dessas pessoas.

O livro “Guia do Hacker Brasileiro” disserta de forma humorada a respeito dos crackers e hackers, deixando claro que muitos dos crackers que encontramos em redes sociais nada são parecidos com os de antigamente. A nova geração de ​crackers não pode ser confundida com os gênios da informática de então, pois muitas vezes fazem uso de programas e ferramentas prontas, não sabendo o básico de programação. Esses indivíduos são denominados ​script kiddies e são uma subcategoria dos ​crackers​, além deles há também os ​lamers “…aqueles que chegam nos chats anunciando ‘vou te invadir, sou o melhor’ mas acaba desistindo pois não consegue descompactar nem um arquivo ​ZIP​”. (ASSUNÇÃO, p. 12).

Hackers e ​crackers se inserem em um meio chamado “contracultura da internet.” As contraculturas, mesmo nos meios não virtuais, são formas diferentes de se agir, de se manifestar como grupo, são pessoas que não se fecham às normas aplicadas à sociedade e buscam novas formas de representação, como o movimento hip hop, hippie, grunge, entre outros. O mesmo acontece dentro das comunidades virtuais, quando grupos de usuários passam a não se sentir representados por, por exemplo, a maneira como o governo lida com o conhecimento que tem em mãos, e passam a encontrar maneiras de poder se expressar e exibir seus conhecimentos para um público maior.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AGUIAR, Vicente. Da contracultura à cibercultura: Uma reflexão sobre o papel dos hackers.

Revista                      Objectiva​.                      2017.                      Disponível                      em:

https://medium.com/@objectiva/da-contracultura-%C3%A0-cibercultura-uma-reflex%C3%A3 o-sobre-o-papel-dos-hackers-72a81f07c9ff

 

ASSUNÇÃO, Marcos Flávio Araújo. ​Guia Do Hacker Brasileiro​. Editora: Visual Books.

2002.

 

CASTELLS, Manuel. ​A Galáxia Internet: reflexões sobre a Internet, negócios e a sociedade​. ​Editora​: ​Oxford University Press​. 2001.

 

COLARIK, Andrew M. ​Cyber Terrorism: Political and Economic Implications​. Editora: IGI Global.​ 2006.​

 

FRONZA, Cristiane G. ​O Ciberespaço como lugar de Contracultura​. Cuiabá: UFMT, 2014. Dissertação (Mestrado), Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea, Universidade Federal de Mato Grosso, 2014.

 

PRETTO, Nelson de Luca. Redes Colaborativas, Ética Hacker e educação. ​Educação em Revista ​(UFMG. Impresso), v.26, p. 305-316, 2010.

 

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *