Cyberpunk

A definição deste subgênero literário abordado se tornaria ineficaz sem definir sua corrente geradora e aspectos que coincidem com nosso sistema econômico atual. Seguindo os aspectos centrais apontados se faz necessário trazer um panorama de análise pós- moderna e suas correntes capitalistas, compreendendo seu surgimento e suas questões filosóficas baseando-se nas teorias de McCarron (1995), em seu livro “Corpses, Animals, Machines and Mannequins – The Body and Cyberpunk“. O compromisso do presente texto não é analisar o livro como objeto de estudo central, mas usá-lo para fundamentar o desenvolvimento e apontamentos feitos no mesmo.

Em seu livro, McCarron (1995), aponta sete aspectos pontuais do movimento Cyberpunk: A reprodução biológica se torna irrelevante; Existe a possibilidade de mundos paralelos; Compra de próteses e implantes corporais; O ciberespaço é apresentado tecnologicamente; Há uma sátira ao “capitalismo“, ao mesmo tempo em que emprega características de sua formação; Considera uma dicotomia no conceito de humanidade
(inumano); As multinacionais substituem o governo e são atacados por revolucionários. Essa é uma exposição sistemática que nos permite estabelecer uma definição geral sobre um tema complexo, para que o encadeamento seja possível.

O cyberpunk é um movimento que se comporta de maneira crítica ao sistema econômico em que vivemos, prevendo o seu futuro, em que na sua contemporaneidade venera a tecnologia como sendo a resposta para um mundo mais igual e democrático e em seu futuro terá uma relação indissociável e conflituosa com as máquinas. O conflito aconteceria prevendo uma consciência por parte das máquinas de seu uso na sociedade, se configurando de maneira opressora e desigual, sendo o estopim para uma revolução,
uma guerra entre humanos e máquinas. O ponto central é a utopia de um estado não controlado, que encontra grupos nesse sentido partindo do mesmo princípio, como o movimento “hippie“, em que não se enquadraram nos anos 80 em um sistema centralizado, hierarquizado, que definiu uma grande parcela da população sendo a engrenagem determinante para o funcionamento de seu sistema econômico e que beneficia uma parcela mínima, que detêm todo o processo de produção e o domínio sobre o proletariado
(características presentes hoje na atual pós-modernidade). Nesse mesmo sentido, o movimento Cyberpunk questiona as hierarquias humanas propondo uma mitigação, um “borrão“, nas diferenças entre andróides, humanos, animais, etc, buscando o mesmo princípio de igualdade e liberdade dos hippies.

Um exemplo de representação dos aspectos apontados na ideia Cyberpunk é a obra “Neuromancer“ de William Gibson. Considerado “pai do Cyberpunk“ o autor desenvolve a história em um futuro distópico e altamente marcado pela tecnologia, com um acesso contínuo e amplo da informação hackers e grandes redes onipresentes fazem do “ciberespaço“ um mundo livremente explorado e muitas vezes confundido com “Sprawl“ (megacidade composta por todo o terreno urbano existente entre Boston e Atlanta, incluindo
Nova York e Washington). O personagem principal é “Case“, um exilado do Ciberespaço. Com as câmeras focadas em um homem oprimido, marginalizado, se torna evidente sua semelhança a classe oprimida, que é cada vez mais explorada e deixada às margens de uma metrópole. Metade da população usa máscaras com filtro, decorrente a ação humana sobre a terra, que hoje em condições menores, passa por uma frequente desatenção sobre os poluentes despejados no ar, sendo através das formas de exploração dos recursos naturais, da utilização de veículos movidos por substâncias tóxicas ou da produção animal. A cidade poderia ser comparada com Nova York, movida por grandes corporações com prédios grandes e cheios de avisos e informativos publicitários, decorado com um materialismo histórico, decorrente da pós-modernidade e seus aparatos tecnológicos, “… as entranhas de uma televisão tão velha que estava abarrotada com os tocos de vidro de tubos de imagem, o prato de uma antena parabólica todo amassado, um cano de fibra marrom
todo recheado de tubinhos de alguma liga metálica corroída.“ (Neuromancer, GIBSON). Uma visão aterrorizante que se torna presente em “Sprawl“, um futuro previsto pelo movimento Cyberpunk.

O autor na obra, ainda refere-se ao “virar silício“, que seria refinar o corpo com tecnologia, indicando a crença no consumo e o enaltecimento da cultura americana de se “reinventar“.

Podemos observar características próximas da pós-modernidade e o movimento cyberpunk, considerando um desencantamento em relação ao futuro garantido promovido por diversos contextos históricos que o possibilita de ser o melhor. A pós-modernidade se constrói através de um futuro possível, a negação de qualquer fundação, não existe só uma possibilidade pro real, que ao se colocar como tal se configura numa posição totalitária em relação àqueles que estão sujeitos a essa realidade. “Ela“ nega projetos utópicos e
considera que o meio é formado pelo sentido que os sujeitos dão às coisas, a ideia fundamental de um mundo carente de sentidos e que sem narrativas legitimadoras torna o ser dono de sua própria liberdade. Existem relações hierárquicas e conflitantes entre as classes dominantes e as dominadas, da relação do opressor e o oprimido, do proletariado e os donos do processo de produção e da força de trabalho, dos humanos e das máquinas, com conflitos ideológicos e revoluções diante a um sistema socialmente disfuncional e desigual, que em síntese se assemelha muito com o movimento cyberpunk, de uma luta em prol a soberania do ser diante a um sistema cultural e econômico.

O Cyberpunk oferece uma outra vertente de pensamento sobre uma cultura, o autor McCarron (1995) considera que o movimento desencadeia a formação de um “novo sujeito“ que possuiria uma identidade terminal, partindo do pressuposto de que o movimento se baseasse em questões filosóficas de ordem moderna levando diretamente a dicotomia cartesiana de mente/corpo, em que a mente pura só é possível com o desprendimento do corpo, a carne se torna irrelevante e o processo de desumanização vigente.

 

Com os pontos apresentados, foi possível oferecer uma breve associação entre o surgimento do movimento Cyberpunk e a pós-modernidade, as características semelhantes com o sistema capitalista atual, buscando sua definição e aspectos relevantes que contribuíram seu surgimento, como a luta de diferentes grupos citados pela descentralização do poder do estado sobre suas vidas, a emancipação do ser oprimido e a
busca pela igualdade.

AUTORES:
João Depine
Luiz Prendin
Rafael Bedide

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