Click Farms

Com o surgimento da ​Internet e da rede mundial de computadores denominada World Wide Web ​(WWW) ou simplesmente ​web a informação passou a ser divulgada e compartilhada de uma nova forma. O usuário pode agora pesquisar rapidamente sobre os assuntos de seu interesse e compartilhá-los a partir de um ​link​. Esse ​link além de ser um atalho para visualizar a informação, também é utilizado como parâmetro para que os sites​, blogs​, entre outras páginas da ​Internet possam mensurar a quantidade de visualizações que recebem diariamente, por exemplo. O processo acontece através do ​click​, cada vez que alguém clica em um ​link para acessar tal informação está automaticamente transmitindo ao servidor da página em questão que um acesso foi feito.

 

Essa forma de mensuração logo tornou-se atrativa e muitas marcas passaram a anunciar seus produtos em ​sites com grande engajamento como, por exemplo, o ​YouTube​. O termo ​click farms tornou-se mais comum e a técnica passou a ser utilizada por grandes empresas, marcas, entre outros, com a finalidade de promover e aumentar cada vez mais os cliques e acessos de páginas. Muitos sites, os quais oferecem centavos por clique, surgiram vendendo a falsa ideia de que pessoas poderiam trabalhar em suas casas obtendo um alto lucro em questão de minutos.

Uma simples busca no google com as seguintes palavras “ganhe dinheiro clicando em anúncios” resulta em cerca de 674 mil resultados, evidenciando a grande popularidade das fazendas de cliques. Luis Alaya em seu livro “​Cybersecurity Lexicon​” define o termo click farm ou fazenda de cliques como sendo uma forma de fraudar cliques com a ajuda de pessoas que são contratadas para clicarem em links de anúncios e recebem pouquíssimo para desempenhar tal função. Além de clicarem nos links​, os usuários ainda permanecem um tempo no site em questão e acabam, muitas vezes, inserindo seus e-mails para receberem as ​newsletters​ das páginas acessadas.

Apesar dos cliques renderem centavos, existem aqueles que passam horas de seus dias executando a mesma atividade. De acordo com Ayala “Para muitos desses trabalhadores, clicar em um número satisfatório de anúncios por dia pode aumentar suas rendas substancialmente e pode também ser uma alternativa a seus diferentes tipos de trabalho” (p. 33, tradução nossa). Ou seja, por mais que cada clique pague uma quantia pequena, os usuários que dedicam boa parte de seus tempos realizando a função de clicar em anúncios acabam por aumentar suas rendas ao final do mês.

A grande dificuldade para as páginas que recebem esses cliques é identificar que esse tráfego é na verdade estimulado por fazendas de cliques, já que o comportamento do usuário visitante ao acessar tal página acaba sendo muito parecido com o comportamento de qualquer outro visitante. Outro ponto apresentado por Ayala é o fato de que apesar de ser uma violação das políticas de uso das mídias sociais para usuários, não existem aparatos governamentais que classifiquem as fazendas de cliques como ilegais.

Outra prática bastante comum é a de criar perfis falsos que posteriormente são vendidos para essas fazendas de cliques. O jornalista Doug Bock Clark detalha muito bem como elas impactam diretamente as mídias sociais em sua matéria “​The Bot Bubble: How click farms have inflated social media currency​” publicada na revista ​The New Republic​. Não só de cliques em anúncios vivem as fazendas de cliques, elas encontram-se em outras plataformas também. Seja em ​likes no ​Facebook​, seguidores no ​Twitter​, visualizações no YouTube​, seguidores e ​pins no ​Pinterest​, entre outros, todos esses números de engajamento são vendidos à preços razoavelmente baixos, variando entre 12 a 30 dólares. Para Clark “As mídias sociais são agora o motor da Internet, mas este motor está utilizando um combustível muito suspeito.” (p. 2, tradução nossa).

Clark ainda explica que os perfis falsos criados são muitas vezes confundidos com perfis legítimos, de pessoas reais, pois acabam passando pelo mesmo processo de criação. O perfil é criado com informações “pessoais” e quando é necessário efetuar alguma verificação por celular, as fazendas de cliques já estão preparadas para isso e utilizam números de celulares novos para validar os seus ​bots​, como podem ser chamados esses perfis.

Apesar de não ser considerada uma atividade ilegal, Stephanie Clifford do jornal ​The New York Times escreveu uma reportagem a respeito de um esquema de ​click-fraud​, ou fraude de cliques, no ano de 2009 que resultou em processo. A empresa Microsoft processou Eric Lam, Gordon Lam e Melanie Suen, suspeitos de praticarem fraudes de cliques, após um ano de investigações. O prejuízo da empresa com o esquema de fraude foi de aproximadamente 750 mil dólares, uma quantia irrisória quando comparada ao faturamento anual da época, 13.7 bilhões de dólares. Entretanto, a empresa relatou que decidiu dar continuidade ao processo para que o valor pago pelos fraudadores fosse caro, uma tentativa de diminuir e/ou acabar com as fazendas de cliques.

Outro segmento da Internet que sofre com essas práticas atualmente são as avaliações ou ​reviews feitas em ​sites ​como Yelp, TripAdvisor, IMDB, entre outros. No artigo “​Fake Reviews Tell no Tales? Dissecting Click Farming in Content-Generated Social Networks​” os autores explicam que como muitos processos de ​review ​são feitos de maneira anônima e os usuários possuem poucas informações a respeito da pessoa responsável por aquela avaliação, a credibilidade das avaliações pode ser prejudicada por esses ​bots​.

Um caso recente de fraude em avaliações é o do pastor Edir Macedo que, de acordo com a matéria publicada pelo site “​O Hoje​”, teve o número de avaliações de sua autobiografia reduzido de 150 para 7. Ao que tudo indica, brasileiros estariam utilizando bots ​programados para deixar avaliações em inglês, com o objetivo de aumentar a nota do filme do pastor. As suspeitas começaram quando o filme “​Nada a Perder​” atingiu nota 10 igualando-se a filmes clássicos de ​Hollywood​, como “​O Poderoso Chefão”​. Apesar de ser uma prática muitas vezes difícil de ser detectada, é possível ainda perceber os padrões de comportamento dos usuários legítimos e dos bots a fim de distinguir publicações consideradas normais das publicações consideradas ​spams​.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AYALA, Luis. ​Cybersecurity Lexicon​. Chapter 4 C. Editora: Apress. p. 33, 2016.

 

BOCK CLARK, DOUG. The Bot Bubble: How click farms have inflated social media currency. ​The New Republic​. Digital Edition. 2015. Disponível em:

https://newrepublic.com/article/121551/bot-bubble-click-farms-have-inflated-social-media-cur rency Acesso em: 24 de Abril de 2018.

 

CLIFFORD, STEPHANIE. Microsoft Sues Three in Click-Fraud Scheme. In: ​The New York

Times​. 2009. Disponível em: https://www.nytimes.com/2009/06/16/business/media/16adco.html Acesso em: 24 de Abril de 2018.

 

HAIZHONG, Zheng. LI, Neng. XUE, Minhui. DU, Suguo. ZHU, Haojin. Fake Reviews Tell

No Tales? Dissecting Click Farming in Content-Generated Social Networks. ​China Communications​. V. 15 (4), p. 98-109, 2018.

 

O HOJE. ​Cinebiografia de Edir Macedo tem nota reduzida no IMDb por fraude​.

Disponível                                                                                                                                em:

http://www.ohoje.com/noticia/cultura/n/148292/t/cinebiografia-de-edir-macedo-tem-nota-redu zida-no-imdb-por-fraude​ Acesso em: 24 de Abril de 2018.

 

 

 

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